Sobre momentos de inocência e ignorância (no bom sentido)

 
Quando eu tinha 17 anos tive uma conversa com o meu pai sobre qual curso eu gostaria de fazer na faculdade e porquê. Eu estava chegando perto da época de prestar vestibular, e havia mudado minha eterna opção de ser engenheira mecânica (sim!) por fazer qualquer curso que não tivesse matemática envolvida. Na realidade, essa conversa teve duas partes. A primeira foi justamente no momento em que eu percebi que não tinha a menor afinidade com números e que as chances de passar no curso que eu tinha idealizado desde sempre eram quase nulas. Conversei com meu pai de maneira muito franca, mas com o coração apertado – afinal, imaginei continuamente que um dia poderia trabalhar ao lado dele e, acredito, ele também pensou sobre isso. Expliquei meus motivos, minhas dúvidas, meus medos e principalmente o pavor irracional que eu tinha de falhar – tanto no vestibular, quanto na faculdade. Meu pai, o homem mais compreensivo do mundo e meu fã número 1, disse que isso não era problema. Que eu devia fazer o que achava que seria melhor para mim e que ele se orgulharia seja qual fosse minha escolha.
 
 O que você decidir, está decidido!
 
O segundo momento desse diálogo aconteceu alguns meses mais tarde. Eu finalmente havia elegido qual seria o curso “sem matemática” e mais condizente com as minhas habilidades e conhecimentos: jornalismo. Expliquei para ele que, de todas as opções que eu tinha analisado, esta se encaixava melhor nos meus planos. Disse que não poderia fazer Letras, apesar de gostar muito de ler – sei que não se resume a isso, mas eu adolescente na época e não sabia disso –, pois não queria ser professora, não tinha vocação para isso. História nem pensar. Não. Mesmo que meu interesse por essa matéria no colégio fosse grande, não poderia ser minha graduação, justamente por eu não ter – ou achar que não tinha – o dom de lecionar. Justifiquei minha escolha de todas as maneiras possíveis até chegar num ponto da conversa que me marcou profundamente tamanha a ingenuidade em minhas palavras.
 
 Escolhi jornalismo, pai, porque assim me formarei na faculdade fazendo o que gosto: ler e escrever muito. E, enquanto isso, posso me dedicar ao meu objetivo maior, que é escrever um livro. Mas como preciso ter uma profissão, vou escolher essa.
 
Eu realmente pensava que seria fácil assim. Faria faculdade, só para ter o famoso superior completo. Havia escolhido um curso que poderia estimular e refinar minha escrita e, no fim das contas, teria todo o tempo do mundo para escrever meu livro. Simples assim. Viveria disso. Seria escritora. Meu pai me olhou nos olhos, balançou a cabeça e disse “Filha, faça isso. O que você escolher está bom demais para mim”. Naquele momento senti que tinha resolvido tudo. Acertado todos os ponteiros do universo e me prepararia para uma jornada na qual só importaria me dedicar ao meu sonho. A inocência desse momento me sufoca até hoje quando penso naquela conversa. Como era simples sonhar e ter a garantia de que tudo seria possível independente de qualquer coisa.

Meu nome é Gabriela, tenho 24 e sou jornalista. Trabalhei durante quatro anos grandes revistas das áreas de arquitetura e decoração e hoje sou freelance. Livros são a minha paixão e adoro falar sobre eles e tudo o que os envolve.

19 Comentários

    Michelle Graça

    27th abr 2017 - 18:46

    Adorei sua reflexão sobre nossos sonhos e a inocência que carregamos por eles. Que bom que optou por um curso que te traga muito mais que um emprego, traga paixão pelo q faz

    Camila

    27th abr 2017 - 23:36

    Nossa depois de ler o texto, e fiquei um tempo refletindo para depois comentar.
    Eu tinha esse mesmo pensamento quando decidi que faculdade faria, éramos inocentes mesmo, pois a vida não é bem assim né. Acabei nem trabalhando na área que eu sonhava, pois era a profissão dos sonhos e não a que empregava facilmente rs.

    Beijos

    tudojuntoemisturado.info

    Mari

    27th abr 2017 - 23:36

    A gente precisa ter esses momentos de inocência. A vida vem depois e mostra que não é bem assim, mas pelo menos, lá atrás, nós tivemos esse momento em que tudo estava certo!
    Beijos
    Mari
    http://www.pequenosretalhos.com

    Lucas de Paes

    27th abr 2017 - 23:36

    Gabriela, quase segui o mesmo caminho que você!
    Fiz seis períodos de Sistemas de Informação, mas abandonei pra entrar na área de comunicação. Comecei em jornalismo e logo migrei pra Publicidade. Hoje formado, penso que meus pais realmente tiveram motivos pra ficarem loucos com essas mudanças. Mesmo assim tive o apoio deles em todo os trajetos.

    caroline sena

    27th abr 2017 - 23:36

    nossa vou fazer 21 e ainda não faço ideia do que quero fazer, fico adiando e adiando mas quando penso em fazer algo por anos e chegar lá no final não ser o que gosto realmente, me da um aperto no coração 🙁

    Blog Entre Ver e Viver

    Helô

    27th abr 2017 - 23:39

    Adorei o seu post. Porque me vi passando por isso. Lembro que a cobrança era muito grande e na época eu não podia pagar uma faculdade privada e também não poderia deixar de trabalhar pra estudar de forma integral, porque minha renda ajudava em casa. Foi então que passei num curso noturno de uma faculdade publica, fiz o curso mas sempre pensando que não era aquilo que me faria feliz, porém, era necessário um curso superior. Ano passado (3 anos após minha formatura) iniciei realmente um curso que amo fazer, porque hoje tenho condições de pagar e manter a casa. Estou realizada!!!!! Fico feliz que tenha conseguido realizar seu sonho e eu estou a caminho do meu 😉

    Gabriela Zanardo

    27th abr 2017 - 23:41

    Michelle,

    Sou muito grata por ter tido a oportunidade de fazer algo que gosto como hobbie e ainda poder trabalhar com isso! Já trabalhei em áreas que não eram aquilo pelo qual eu tenho paixão e posso dizer que a diferença é imensa. Trabalho até ficar vesga de tanto olhar pra tela do computador, mas faço isso dando risada. Muito bom! <3

    Gabriela Zanardo

    27th abr 2017 - 23:43

    Caroline,

    É muito angustiante pensar em se dedicar a uma coisa pra depois ver que não é aquilo. Se você puder, sugiro que tente "experimentar" profissões que você pensa que pode gostar, ou que pelo menos converse bastante com profissionais da área. Algumas faculdades tem dias de visitação voltadas para isso.

    Boa sorte!

    Beijos <3

    Gabriela Zanardo

    27th abr 2017 - 23:44

    Lucas,

    É muito bom poder contar com o apoio dos pais. Se eu não tivesse tido essa conversa com o meu pai, eu teria surtado na fase de vestibular porque ia acabar prestando para um curso que não era o ideal, mas que eu pensava ser o que faria ele feliz. Foi um alivio!

    Beijos <3

    Gabriela Zanardo

    27th abr 2017 - 23:46

    Mari,

    É verdade! Me sinto sortuda por ter podido ter esses momentos.

    Beijos <3

    Gabriela Zanardo

    27th abr 2017 - 23:48

    Camila,

    Consegui trabalhar na profissão dos sonhos e ver que ela não tinha o glamour que eu imaginava, mas mesmo assim sigo apaixonada por jornalismo!

    Nem sempre da pra fazer o que gosta e pagar as contas, isso que é ser adulto hahaha

    Beijos <3

    Gabriela Zanardo

    27th abr 2017 - 23:49

    Helô,

    Fico muito feliz em saber que você está podendo realizar seu sonho! É muito bom poder fazer aquilo que sonhamos e amamos.

    Um beijo <3

    Ana Letícia

    28th abr 2017 - 15:09

    Mesmo já fazendo faculdade, não sei o que quero da minha vida ainda. Faço Pedagogia, já fiz Psicologia, horas quero tentar jornalismo, horas administração.. É uma verdadeira loucura.

    Érika Monteiro

    1st maio 2017 - 19:14

    Oie, tudo bem? Escolher algo que faremos pelo resto de nossas vidas é uma grande responsabilidade e grande parte das pessoas não está preparada para tomar essa decisão. Mas a vida é assim, feita de erros e acertos, descobertas, e claro aprendizados. Precisamos experimentar, testar, e saber como são as coisas, aí sim tomar uma decisão acertada. Ótima reflexão. Beijos, Érika =^.^=

    lua de paula.

    1st maio 2017 - 19:14

    Nunca tive essa conversa com os meus pais. Meu pai não opina sobre nada e minha mãe só visa no dinheiro. Até hoje sou pedida. Faço faculdade de RH(no último período), mas tenho a plena certeza de que não é nisso que quero trabalhar. Espero me encontrar logo.

    Flávia Oliveira

    1st maio 2017 - 19:14

    Um pouco triste esse teu texto mas acredito que seja por uma coisa: a realidade que estou passando. Quando escolhi fazer faculdade a 5 anos atrás, acreditava também que no meu momento atual, estaria no ramo e feliz. Nenhuma das coisas aconteceram. A boa parte é a persistência de continuar seguindo esse sonho, e espero que você também esteja porque escreve muito bem.

    http://www.quistecontar.com

    Rian

    1st maio 2017 - 19:14

    Ótimo post. Esse momento de escolher qual faculdade e profissão seguir é muito difícil mesmo. Não passei por isso ainda porque ainda não tenho 17 ou 18 anos mas já imagino como deve ser.

    Maria Eduarda {@dudsparrow}

    2nd maio 2017 - 13:48

    Muito legal seu texto! É complicado demais porque a gente acaba tendo que "decidir" nosso futuro muito cedo, quando ainda nem vimos nada da vida 🙁 Abraço 🙂

    Red Behavior

    Fran e Bruno Scandolara

    2nd maio 2017 - 13:48

    Amei seu post.
    Realmente quando somos mais novas pensamos que basta decidir algo e o resto acontecerá naturalmente. Mas são tantas etapas a vencer pelo meio do caminho…

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Meu nome é Gabriela, tenho 24 e sou jornalista. Trabalhei durante quatro anos grandes revistas das áreas de arquitetura e decoração e hoje sou freelance. Livros são a minha paixão e adoro falar sobre eles e tudo o que os envolve. Boas leituras!

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