Diário de Leitura #22: A Pequena Sereia e o Reino das Ilusões – Louise O’Neill

Se eu disser que nunca assisti à versão da Disney de A Pequena Sereia, vocês acreditam? Pois é. Quando eu era criança a única historia que eu conheci sobre Ariel foi por meio de um VHS da coleção Videoteca da Folha, que vinha junto com o jornal de domingo. Se você nunca viu esse filme, bom, não era exatamente um conto de fadas com final feliz. 


A história contida na jurássica fita tinha um final bem mais trágico do que o “felizes para sempre” que a empresa do Mickey Mouse insiste em vender pra gente. Para resumir, a pequena sereia descobre que seu tão sonhado príncipe está apaixonado por outra e seu corpo se dissolve em bolhas de sabão no mar. 

Se você é muito jovem, provavelmente nunca nem ouvir falar da Videoteca da Folha.
Busquei no Google uma foto do VHS, mas só encontrei com baixa qualidade.
Agora você deve estar se perguntando o que um VHS de mil novecentos e bolinhas tem a ver com o livro A Pequena Sereia e o Reino das Ilusões, imagino. Então vamos ao que interessa.

Título: A Pequena Sereia e o Reino das Ilusões
Autora: Louise O’Neil
Ano: 2019
Páginas: 213

O Livro


Na versão super contemporânea assinada pela autora Louise O’Neil, acompanhamos a jornada de Gaia, uma sereia de 15 anos que vive em uma sociedade patriarcal extremamente machista (lembra alguma coisa?). No reino dos mares, ela, as irmãs e basicamente todas as mulheres são ensinadas a serem contidas, submissas e encorajadas a alcançar padrões de beleza muitas vezes inatingíveis, fazendo com que muitas sejam infelizes. Como resultado, a competição feminina é muito forte, mesmo entre as irmãs da realeza. O Rei das Águas, pai de Gaia, negociou sua mão com um tritão respeitado e temido nos sete mares… e com idade para ser avô da jovem. 

Seguindo a tradição, em seu décimo quinto aniversário a ruiva é autorizada a subir à superfície para ver como as coisas são terríveis por lá e voltar ainda mais “grata” por poder viver onde vive. No entanto, a debutante presencia o naufrágio de uma lancha e acaba salvando um rapaz chamado Oliver, por quem ela se apaixona imediatamente. Quando retorna para casa a menina já não é mais a mesma. Quase um ano depois, uma série de elementos, incluindo abusos físicos, somam-se à sua crescente vontade de poder explorar o mundo humano, como o desejos de encontrar a mãe que também se afeiçoou à terra firme e desapareceu no primeiro aniversário da filha caçula.  Seguindo os anseios de seu coração, Gaia deixa para trás uma vida infeliz e segue rumo à superfície.

 Mas antes, é claro, precisa dar uma palavrinha com a Bruxa do Mar para ganhar pernas novinhas em folha e conseguir caminhar e se misturar aos humanos. Em troca, como era esperado, Ceto, a bruxa, fica com a bela e melodiosa voz da princesa e avisa: se em trinta dias o jovem Oliver não se apaixonar por ela, seu destino será selado com a morte. 

Gaia percebe que o mundo humano não é tão diferente do fundo do mar. Ali, mulheres também são tratadas com condescendência, também sofrem com padrões de beleza absurdos e vivem tentando agradar aos homens. No entanto, ela está decidida a fazer o rapaz se apaixonar por ela. 



Os Personagens


Gaia é uma jovem cheia de questionamentos que não consegue aceitar as limitações e obrigações impostas às mulheres do reino sirênico. Ela vive “mordendo a língua” para agradar ao pai, o Rei das Águas, e tem raríssimos momentos em que consegue falar abertamente com a avó, que no fim das contas a incentiva a tentar obedecer e pensar menos porque assim “a vida fica mais fácil”. Apesar de sua força e obstinação, Gaia acaba abrindo mão de seu tesouro mais precioso, sua voz, para ir atrás de um homem que nem sabe que ela existe e fazer com que ele se apaixone por ela. Fazer o quê, né.

Oliver Carlisle é um rapaz nascido em uma família muito rica e poderosa. Ele perdeu a namorada, Viola, em um naufrágio enquanto celebrava seus 21 anos. Junto com dois de seus amigos ele encontra Gaia na praia e a leva para casa onde a jovem recebe cuidados. Basicamente ele é um babaca mimado que age de maneira super gentil e preocupada, mas parece gostar bastante do fato da menina não poder falar, o que aparentemente a torna uma boa ouvinte, além de simplesmente sumir depois de beijar a garota. Sinceramente me deu vontade de bater na cara dele umas cem vezes ao longo de pouco mais de 200 páginas. 

****A partir desse ponto é possível que haja spoilers****



Pontos positivos x pontos negativos


Antes do primeiro capítulo há uma carta das editoras falando que o livro aborda questões feministas e sobre empoderamento que são super relevantes aos tempos atuais. Concordo em partes. O livro realmente menciona essas questões e causa muito desconforto porque vemos ali descritos em forma de ficção elementos que nós mulheres vivenciamos ou presenciamos todos os dias, como machismo, incentivo à competição entre mulheres, a busca por um corpo magro, abusos físicos e mentais, enfim, toda essa merda que acontece com a gente porque boa parte dos homens acredita que mulheres são seres inferiores a eles. No entanto, a autora traz frases tão batidas e passa por esses tópicos de forma tão superficial que fica parecendo que ela foi introduzindo esses elementos só para eles estarem ali porque espera-se isso de narrativas contemporâneas. Não há uma discussão realmente. Então não o considero uma leitura feminista. O livro simplesmente aponta a existência dessas questões.

Outra coisa que me chateou foi a personagem principal que tinha tudo para ser uma menina empoderada, questionadora e inconformada que vai em busca dos seus sonhos e enfrenta até mesmo a ira da maior figura de poder em sua sociedade, o Rei das Águas, seu pai. Mas, assim como todas as pequenas sereias, sua motivação maior é encontrar um homem que ela mal conhece e por quem se apaixonou assim que viu, sem pensar duas vezes. Para mim, a maior incoerência da história. Gaia começa como um ser pensante e no meio do livro parece ficar burra por causa de um garoto. Ok, eu entendo que meninas de quinze anos se apaixonam e muitas vezes não têm maturidade para pesar as decisões antes de tomá-las. Só que, nesse caso específico, a personagem sempre foi muito questionadora, e então, de repente, o objetivo dela é ficar com um cara. É frustrante. Dava muito bem para a história ter girado em torno da busca pela mãe desaparecida e o desenvolvimento de uma consciência mais crítica nas mulheres da história, quem sabe até o começo da busca por uma sociedade igualitária. Enfim. Sei que é um livro YA, mas ainda assim poderia ter um rumo diferente. 

Bom, assim como na história do VHS que mencionei lá em cima, a pequena sereia recebe a visita de suas irmãs que imploram para que ela volte porque o reino virou um caos desde sua partida. Elas entregam um punhal a Gaia e dizem que a única maneira de recuperar sua cauda é cravando a arma no coração do rapaz e banhando seus pés no sangue dele. Um tanto macabro e, admito, o final digno que eu queria. 

Depois de cagar em cima do livro, vamos aos prós. Primeiramente quero elogiar o trabalho da editora DarkSide Books. A edição é muito boa, tanto nos materiais de capa e miolo, quanto a arte, a tradução e a revisão (ambas impecáveis). A leitura é rápida por se tratar de um livro com apenas 213 páginas, além de ser um texto fluído e bem escrito. Apesar de eu ter ficado descontente com os rumos da história, o enredo tem algumas reviravoltas inesperadas e momentos de reflexão. Acho que como já tô bem longe dos meus dias de dancing queen (only seventeen) tenho um olhar mais endurecido para as questões que cercam o universo adolescente e isso talvez tenha influenciado na minha visão um tanto quanto negativa. Quando me dispo desses conceitos já enraizados em mim e olho para trás, para a Gabriela de 15/16 anos, consigo entender as motivações da personagem e sinto empatia por ela. Sua imaturidade, inexperiência e inocência a levaram a fazer escolhas erradas, movidas por uma visão romântica (que também nos é incutida muito cedo). 

Recomendo sim a leitura, especialmente porque quem ainda não percebeu as atrocidades que acontecem na sociedade patriarcal em que vivemos pode acabar fazendo conexões com as situações retratadas no livro e as da vida real. 

Meu nome é Gabriela, tenho 24 e sou jornalista. Trabalhei durante quatro anos grandes revistas das áreas de arquitetura e decoração e hoje sou freelance. Livros são a minha paixão e adoro falar sobre eles e tudo o que os envolve.

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Meu nome é Gabriela, tenho 24 e sou jornalista. Trabalhei durante quatro anos grandes revistas das áreas de arquitetura e decoração e hoje sou freelance. Livros são a minha paixão e adoro falar sobre eles e tudo o que os envolve. Boas leituras!

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