Marina

Escrevi o texto abaixo em 2012. Procurando algo para postar no blog, me deparei com ele numa pastinha de textos antigos. Quase não editei. É bacana perceber o quanto minha escrita evoluiu de lá para cá, mas também o quanto, acredito eu, ela já dava sinais de ser boa. Cinco anos depois, é bom perceber que as coisas mudam, que a vida segue, que o que parecia algo enorme, era, na verdade, uma partícula de poeira insignificante, que ficou para trás, que passou, parou de doer porque não era nada demais. Mas, ah, a adolescência. Tudo parecia tão enorme; qualquer acontecimento era o fim do mundo. Era tudo muito intenso, exagerado. Que bom que a gente cresce e vê que não é nada disso. 
Vou deixar vocês lerem agora!
P.S.: Por que “Marina”? Não sei. Sempre gostei desse nome.


MARINA
Marina saiu cedo de casa. A manhã estava fria e caia uma chuva fina que, entre outras coisas, disfarçava as lágrimas que lhe escorriam pelo rosto. Há algum tempo seu coração fora partido e, como alguns de nós sabemos, a dor era tão insuportável que até seu estômago doía. Talvez fossem as borboletas que aos poucos se metamorfoseavam e tornavam-se novamente lagartas. E a devoravam.

Talvez fosse o medo, rasgando-a com suas garras afiadas. O medo da dor. De que ela pudesse doer mais. Se isso acontecesse, ela não suportaria.

As poucas gotas se transformaram, de repente, em tempestade. O vento açoitava seu rosto pálido e suas bochechas ficaram cor-de-rosa. Marina enrolou-se mais em seu casaco marrom e apressou o passo. Ela só queria chorar e ir para o lugar mais longe que conseguisse. Queria esgotar todas as suas forças e talvez, milagrosamente, a dor parasse de doer.

Ela se sentia tão ridícula, tão boba. Os sinais estavam todos lá, mas ela estava tão apaixonada, tão cega. Seu coração pesava no peito. Parecia que havia dobrado de tamanho e que poderia explodir a qualquer momento. Passara a noite anterior chorando desesperadamente até dormir… E acordara chorando. Foi então que resolveu caminhar para lugar nenhum.

Justo ela que sempre viu como idiotas as pessoas que se martirizavam depois de romper um relacionamento. Apesar de a relação dela com ele não ser nem um pouco parecida com um relacionamento. Parecia uma piada de mau gosto. Uma, como ela passou a chamar, linha amorosa. Ela o amava, ele amava outra e a outra amava qualquer um. Mas, apesar disso, ele fazia com que Marina se sentisse tão bem. Beijava-a na testa e a abraçava. Fazia-a rir sempre. E sussurrava promessas de amor, que morriam ao sair daqueles lábios que ela tanto desejava. Infelizmente ela percebeu tarde demais, só depois que os danos ao seu coração já eram irreparáveis.

Ela não gostava de fazer drama. Não suportava pessoas que diziam que iriam morrer após terminar um namoro. Mas agora ela entendia. Agora ela percebia que não era exagero. Só que tem o coração partido sabe como dói. Só quem já foi extrema e verdadeiramente machucado consegue entender o desespero, a escuridão que se instala em seu peito, em sua vida. E agora Marina sabia como era sentir-se vazia, apesar de toda a dor.
Depois de uma hora caminhando seus pés começaram a latejar. E ela percebeu que isso era bom. A dor física fazia com que ela esquecesse, mesmo que por alguns segundos, da tortura mental a que estava sendo submetida.
Com a visão embaçada pela chuva e pelas lagrimas ela viu um bar e resolveu entrar ali. Escolheu uma mesa no fundo e dirigiu-se para lá sem se importar com a água que escorria de seu corpo e ensopava o chão. Só depois ela percebeu que não faria diferença uma vez que o chão já estava todo molhado.
Começando a pensar com mais clareza, pediu um chocolate quente e tirou o dinheiro do bolso interno do casaco. O atendente lhe entregou uma grande xícara e ela agradeceu pelo calor que esta irradiava.

Pensamentos sombrios continuavam açoitando sua mente. Droga, já fazia mais de um ano. Porque ela não conseguia esquecê-lo? Não conseguia pronunciar seu nome, mas também não parava de pensar nele. Ou melhor, não conseguia parar de pensar no que poderia ter sido. No que eles poderiam ter sido juntos. Ela tinha sonhado tanto. Cada vez que o via seu coração quase parava de bater e ela ficava tão feliz. Cada abraço dele fazia com que ela se sentisse segura, mesmo que ele só a abraçasse às vezes. No fundo ela sabia que a culpa era dela, que ela tinha se iludido sozinha. Mas ele tinha sua parcela de responsabilidade. Ele sabia que ela estava apaixonada, não saia? Ela havia falado ‘eu te amo’ tantas vezes. Até um cego veria o quanto ela o amava. E às vezes parecia que ele a amava também. Ele fazia parecer, com seus carinhos e sussurros de amor. Marina se contentava com as migalhas que ele lhe dava. Qualquer segundo em que ele fosse apenas dela era precioso demais. Até o dia em que ele resolveu tirar dela o sorriso. Arrancara-o de seu rosto com palavras frias. Palavras que varreram do corpo dela qualquer alegria que já existira alguma vez. Deixando-a vazia, fria e com medo.

E mesmo depois de um ano, a dor ainda a corroía de vez em quando. Ela sentia raiva da situação. Sentia ódio por ter medo de amar alguém de novo. Às vezes pensava que jamais seria capaz de entregar seu maltratado coração para outra pessoa. Cada vez que chegava perto disso, ela recuava imediatamente. Ela desconfiava de todos. Doía só de pensar que poderia ser esmagada e trucidada novamente. O que a açoitava de vez em quando eram as lembranças do que ela havia sonhado para os dois. Do amor que ela poderia ter dado para ele. Lembranças de um futuro que nasceu, cresceu e morreu, mas nunca existiu de verdade. Só em seus sonhos.

A chuva lá fora ficava cada vez mais forte. Ventava cada vez mais forte. E, dentro dela, a dor doía. Cada vez mais forte. Seus pensamentos eram tão contraditórios. Num segundo decidiu que não o amava mais, que não sentia mais nada. No outro o culpou por não a deixar amar outra pessoa.
Voltando para a realidade, percebeu que terminara seu chocolate quente. Mal sentiu o gosto. Resolveu ir embora. Voltar para casa. Tomar um banho quente e se distrair com qualquer coisa.  Precisava de tempo. Apesar de ter descoberto, da maneira mais miserável possível, que, ao contrário da crença popular, o tempo não cura. O tempo não concerta. Ela descobriu que o tempo, e as decepções, te fazem mais forte, te tornam frio. Ajudam a seguir em frente. O tempo muda o foco, direciona. Mas não cura.

 Ah, mas o tempo cura sim, minha querida. Ele transforma, ensina, repara… 

Meu nome é Gabriela, tenho 24 e sou jornalista. Trabalhei durante quatro anos grandes revistas das áreas de arquitetura e decoração e hoje sou freelance. Livros são a minha paixão e adoro falar sobre eles e tudo o que os envolve.

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Meu nome é Gabriela, tenho 24 e sou jornalista. Trabalhei durante quatro anos grandes revistas das áreas de arquitetura e decoração e hoje sou freelance. Livros são a minha paixão e adoro falar sobre eles e tudo o que os envolve. Boas leituras!

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