Jornalismo impresso em tempos de mídias digitais (ou a morte do papel)

Quando defini o tema da minha monografia intitulada REVISTAS IMPRESSAS NA ERA DIGITAL: reestruturação da produção jornalística e o novo modelo de negócios da Editora Abril, eu jamais poderia imaginar que, menos de dois anos depois de apresentá-la para a banca avaliadora, a empresa na qual iniciei minha trajetória no jornalismo encerraria a publicação da maioria dos títulos que marcaram presença em meu TCC. 
Em 2016, ainda tentando me desvencilhar de uma timidez paralisante e com as faces vermelhas e quentes, entrevistei sete chefes de redação – entre diretores e redatores-chefe que exerciam o papel de direção. No auge dos meus 21 anos, eles me pareciam deuses do Olimpo: seres inalcançáveis que atingiram o topo de um patamar que eu só poderia sonhar alcançar em meus mais loucos devaneios. Mas fui cheia de uma coragem vinda do além (e descobri que eles não mordiam, no final das contas). Ao final de cada entrevista a última pergunta era sempre a mesma: você acha que o impresso vai deixar de existir
Não. Sim. Talvez. As respostas foram variadas, mas os sete não puderam esconder o carinho e o gosto por fazer revistas. Entre as possíveis soluções para evitar a extinção do papel, destacaram-se entre as respostas o reforço das marcas (títulos) como novo modelo de negócio (a revista deixando de ser “apenas” uma revista, para se tornar um produto – ou vários), e a transição para edições mais especiais e limitadas (maiores, com mais curadoria e tempo de preparo, para colecionadores). Na minha cabeça de estudante – ainda cheia de ideais e paixões -, aquelas ideias me pareceram maravilhosas e se tornaram fonte de esperança para uma amante do papel.
Mas então a fatídica segunda-feira, 06 de agosto, veio. Reunião geral. Tristeza. Negação. Choro. Despedidas… 10 (dez) títulos encerrados. Caos. Demissões. Preocupação. E o impresso? Seria esse o começo (ou o reflexo de um movimento que já vem se desenhando há algum tempo) do fim? Não é de hoje que as bancas começaram a esvaziar…
Voltando um pouco (bem pouco) no tempo, no ano de 2015, quando consegui meu estágio na redação da (agora extinta) revista Casa Claudia, presenciei uma série de demissões que culminaram na venda de alguns títulos e no encerramento de outros. Desde aquele dia meus temores quanto ao destino do impresso começaram a se fortalecer. Mas a questão que mais me persegue é: o que está matando o papel? 
Será a Internet? As crises financeiras e políticas que parecem não ter fim? Uma reorganização social promovida por esses dois fatores? A citação abaixo aparece em minha monografia e se encaixa muito bem nesse contexto:

O jornalismo é parte da sociedade. Ele é (re)construído a partir da participação contínua de diferentes atores sociais (indivíduos, instituições, conceitos e abstrações etc.) que interagem conforme um conjunto de normas e convenções, responsáveis pela coordenação das atividades vinculadas a essa prática (PEREIRA, 2010, apud PEREIRA e ADGHIRNI, 2011).

É fato que o desenvolvimento dos computadores e o surgimento da Internet  reconfiguraram o trabalho dentro das redações e também modificaram a forma de consumo e busca por informações. Se por um lado essas tecnologias democratizaram – em parte – o acesso à informação, por outro trouxeram consigo uma sentença de morte – lenta e dolorosa – ao jornalismo tradicional, em especial ao impresso. E, é claro, não podemos deixar de lado as seguidas crises econômicas e politicas no mundo todo que (aceleraram?) tiveram seu papel nesse processo. Não é apenas uma revista (ou dez) que deixa de circular, são profissionais que são jogados em um mercado cada vez mais saturado, com postos de trabalho quase inexistentes. Redações mais do que enxutas respirando com a ajuda de aparelhos… Sem entrar no mérito (ou demérito) das Fake News que são disseminadas feito vírus para os quais ainda não há vacina. Catástrofe total. 
Uma amiga querida que está na faculdade (de jornalismo) escreveu um texto maravilhoso falando sobre a geração de jornalistas que não vai escrever em revistas. De fato, estamos criando futuros jornalistas que nunca vão ter o prazer de editar uma matéria com as fotos em miniatura; sentar do lado dos designers para ver o melhor layout; pedir a contagem de toques (na Internet não existe essa coisa tão banal chamada limite de espaço, não é mesmo?); se doer todo quando o texto é cortado para caber e tantas outras situações que só uma redação pode proporcionar (e tantas outras que eu mesma não vivi por já fazer parte de uma geração que nasceu mexendo no computador). Mas – além dos futuros profissionais que não vão conhecer o sofrimento de esperar pelo reparte e folhear as páginas com pressa para chegar na reportagem que estampa seu nome – como ficará a geração de leitores que não vai ler revistas, muitas das quais tiveram papel fundamental na escolha e formação profissional de uma geração inteira de profissionais? Saudosismo em excesso, talvez? Talvez. Mas ninguém vai conseguir me convencer que – debates ecológicos à parte – o papel é a principal e, EM GERAL, mais confiável e rica fonte de informações. 
Se a Internet não existisse, é claro, eu não poderia publicar este texto (desabafo). Minhas palavras podem soar hipócritas, mas a preocupação é verdadeira: se o impresso acabar (livros, revistas, jornais e tantas outras publicações), qual será o destino dos profissionais, sejam eles experientes, recém-formados ou os que ainda estão por vir? Será que vai ter espaço para todo mundo na grande teia? Fica a dúvida…
Para mim, folhear as páginas, sentir o cheiro do papel e o peso de um volume impresso nas mãos é um prazer insubstituível. 
(mas mandem jobs digitais, preciso pagar os boletos… e os livros)

Meu nome é Gabriela, tenho 24 e sou jornalista. Trabalhei durante quatro anos grandes revistas das áreas de arquitetura e decoração e hoje sou freelance. Livros são a minha paixão e adoro falar sobre eles e tudo o que os envolve.

Posts relacionados

Marina

setembro 18, 2017

O homem da cobra

julho 12, 2017

3 Comentários

    Ana Bonfim

    19th out 2018 - 07:53

    Hey, sei que tem um tempinho que você não aparece por aqui, mas se quiser voltar te indiquei pra uma tag, vai que se anima: https://www.suspirare.com/2018/10/sunshine-blogger-awards.html

    Entrego, confio, surto um pouco e agradeço – O Décimo Terceiro Andar

    26th jun 2019 - 09:12

    […] minha vidinha está hoje. Os planos pareciam bem delineados, mas mudaram completamente desde que a Editora Abril encerrou a publicação de uma série de títulos, entre eles a saudosa e querida Arquitetura & Construção, redação com a qual tive o prazer […]

    Freebies: 4 wallpapers para celular – O Décimo Terceiro Andar

    26th jun 2019 - 09:12

    […] minhas. Espero que gostem! Leia também: Entrego, confio, surto um pouco e agradeço Jornalismo em tempo de mídias digitais (ou a morte do papel) Gostou? Siga O Décimo Terceiro Andar no Instagram e ficar por dentro de tudo que estou lendo […]

Responder

Your email address will not be published. Required fields are marked *

SOBRE

Meu nome é Gabriela, tenho 24 e sou jornalista. Trabalhei durante quatro anos grandes revistas das áreas de arquitetura e decoração e hoje sou freelance. Livros são a minha paixão e adoro falar sobre eles e tudo o que os envolve. Boas leituras!

Curta a Fanpage no Facebook

Assine nossa newsletter!

* indicates required

lendo

Categorias

Arquivo

SIGA-NOS NO TWITTER

SIGA-NOS NO PINTEREST

ads

Siga-nos nas redes sociais

×