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Infarto no Ônibus


Resolvi postar uns textos antigos/ que produzi durante a faculdade/ novos. Vou postando mais conforme me der na telha, mas este daqui é um dos meus preferidos. Presenciei essa cena um dia e achei que valia dar aquele toque literário para um evento cotidiano tão banal, que às vezes passa batido até mesmo pela frequência com que acontece. Tem uma pitadinha de humor e um tiquinho de ironia.
Escrito originalmente em: 20/fev/2014
Por Gabriela Zanardo de Sanctis

Infarto no ônibus

 São Paulo, 32ºC de fevereiro, de 2014. Em um ponto de ônibus qualquer na Eliseu de Almeida. 
Dona Maria adentra o ônibus lotado gritando imprecações ao motorista que, segundo ela, está atrasado. Uma dor de cabeça começa imediatamente a se instalar em minhas têmporas, protestando contra o som estridente daquela voz que não para de discutir.

– Isso são horas, motorista?

– E a culpa é minha, dona? Não tem ônibus!

A irritada senhora continua caminhando, ou melhor, marchando, até o fundo do ônibus. Os outros passageiros trocam olhares de assombro, indignados com tamanha falta de educação. O coletivo segue seu caminho, mas a irritada Maria não está satisfeita. Continua derramando suas lamurias e descontentamentos nos inocentes passageiros que só queriam chegar em suas casas em paz.

– Você não tá nem ai porque não tem que bater ponto! Isso é um absurdo! Tá atrasado. Só passa uma linha aqui nessa merda, não tem mais nenhuma e você chega atrasado.

O pobre do cobrador, um rapaz de no máximo 22 anos, não sabe o que fazer, perdido no meio do fogo cruzado. Solidarizo-me com seu desespero e tento enviar uma mensagem de “tudo ficará bem” com o olhar. Um senhor de aproximadamente 60 anos, com sotaque português, também percebe o desconforto do rapaz e inicia uma conversa sobre como as pessoas eram mais educadas no tempo dele. A viagem continua. Uma pessoa desce, sete sobem.  O calor intenso faz aquela carcaça de metal parecer uma lata de sardinhas sendo cozida numa panela de pressão.

Quando a paz parecia reestabelecida, surge no horizonte um letreiro laranja. Dona Maria parece pressentir que algo grande está se aproximando. Sua cabeça gira para trás. Todos no ônibus prendem a respiração ao mesmo tempo. Alguém suspira.  Um grunhido escapa da garganta da senhora e aquela voz estridente, carregada de ódio, volta a soar.

– Não tem ônibus? Como assim você me diz que não tem ônibus? Olha só aqui, outro 702! Que absurdo! Você tá atrasado!

– Tô atrasado não, senhora.

– Não. Minha vó que tá atrasada. Idiota! Ai que raiva!

Meu ponto está próximo, mas tenho medo até de passar perto da mulher. Engolindo meus temores, consigo chegar até a porta. Dou sinal. Só mais um pouco, penso, logo estarei livre dessa situação constrangedora.

As pessoas olham de cara feia para mulher s de cara amarrada. Algumas comentam entre si, outras murmuram palavras como “barraqueira”, “mal-educada” e outros adjetivos, com a intenção de serem ouvidas. O ônibus para. Desço rapidamente os dois degraus que me separam da liberdade, mas consigo escutar uma última frase antes de a porta se fechar atrás de mim:

– Nossa que ódio. Eu vou acabar infartando de nervoso nesses ônibus. Idiota!

Meu nome é Gabriela, tenho 24 e sou jornalista. Trabalhei durante quatro anos grandes revistas das áreas de arquitetura e decoração e hoje sou freelance. Livros são a minha paixão e adoro falar sobre eles e tudo o que os envolve.

1 Comentário

    Uma série de pensamentos aleatórios e confusos – O Décimo Terceiro Andar

    26th jun 2019 - 08:09

    […] a enxergar novas possibilidades nas desgraças adversidades. Um exemplo: sempre que eu escrevia alguma coisa eu achava que estava ruim. Nossa, que lixo. Aí, quando resolvi que ia deixar para trás a nuvem […]

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Meu nome é Gabriela, tenho 24 e sou jornalista. Trabalhei durante quatro anos grandes revistas das áreas de arquitetura e decoração e hoje sou freelance. Livros são a minha paixão e adoro falar sobre eles e tudo o que os envolve. Boas leituras!

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